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Infecção Urinária (Cistite)

Autor: Prof. Pedro Paulo Sá Earp

Introdução

A infecção urinária, mais conhecida como cistite, é uma das doenças infecciosas mais comuns da atualidade, perdendo em freqüência apenas as respiratórias. Para se ter uma idéia da amplitude atingida por essa doença, de 40% a 50% das mulheres já tiveram pelo menos um episódio de cistite em suas vidas. As infecções urinárias têm importância muito grande também no ambiente hospitalar, sendo responsáveis por 50% de todas as ocorridas nesses locais.

Anatomia das vias urinárias

Os rins são órgãos que têm a função de filtrar o sangue e eliminar impurezas e substâncias danosas ao nosso organismo. Essas substâncias são eliminadas através da urina. Produzida nos rins, a urina passa pelos ureteres e chega à bexiga, onde é armazenada. Quando o acúmulo de urina na bexiga atinge um certo nível, é preciso eliminá-la através de um canal chamado uretra. A vontade de urinar é o sinal que recebemos de que é hora de esvaziar a bexiga.

O que causa cistite?

A urina é normalmente estéril, ou seja, ela é completamente livre de germes, sejam eles bactérias, fungos ou vírus. A infecção ocorre quando esses germes, subindo pela uretra, conseguem penetrar na bexiga e começam a se multiplicar.

As maiorias dos microorganismos que causam infecções urinárias são bactérias que vêm da área entre a vagina e o ânus (períneo), onde habitam normalmente, sem causar nenhum problema. São perigosos apenas quando atingem as vias urinárias. É importante salientar que a presença desses germes no períneo é normal, por mais que se faça uma higiene cuidadosa.

Os microorganismos que mais causam infecção são as bactérias do intestino, sendo uma delas, a Escherichia coli, responsável por 80% de todas as infecções urinárias. Na maioria dos casos, a bactéria começa a crescer na uretra. Quando a infecção fica limitada apenas a este local, é chamada uretrite. Se essas bactérias sobem pela uretra, atingem a bexiga e promovem o que chamamos de cistite (infecção da bexiga). Eventualmente, se a infecção não for logo controlada, as bactérias podem subir pelos ureteres e causar infecção no rim (pielonefrite).

Além das infecções causadas por bactérias, fungos e vírus, existem outras causas menos comuns de cistite, tais como alergia a certos alimentos ou bebidas, estresse etc. Alguns medicamentos  ou substâncias ingeridas ou inaladas, que são eliminadas pela urina também podem causar irritação da bexiga e manifestar-se como uma cistite.

Que pessoas têm maior chance de sofrer infecção urinária?

Sabidamente, as mulheres na idade adulta jovem estão mais propensas a desenvolver infecção urinária do que os homens da mesma faixa etária. Isso acontece principalmente por questões anatômicas. A uretra da mulher é bem mais curto e largo que o do homem.

Além disto, o períneo delas é curto, fazendo com que a uretra feminina se abra muito próximo a fontes importantes de bactérias que são o ânus e a vagina, facilitando a subida dessas bactérias. Uma vez na uretra, elas têm rápido acesso à bexiga, causando a cistite.
Nas meninas, o uso de fraldas, o banho de banheira e o hábito de sentar-se nua no chão faz com que a uretra fique exposta à contaminação e à invasão pelas bactérias externas. Nas mulheres, além das questões anatômicas, a atividade sexual também facilita a penetração de bactérias (que já estavam presentes na entrada da vagina e da uretra) na bexiga, pelo pequeno traumatismo causado pela penetração do pênis na vagina. Após a menopausa, devido à deficiência hormonal, costuma ocorrer uma atrofia nos tecidos da vagina e da uretra, o que predispõe à infecção.

A cistite é raramente vista em meninos e homens jovens. No entanto, após os 50 anos de idade, a incidência de infecção urinária entre homens e mulheres tende a se igualar, pois nessa idade os homens começam a ser atingidos pelas doenças da próstata. Tais patologias dificultam o ato de urinar (micção) causando um acúmulo de grande quantidade de urina  na bexiga, o que  facilita a infecção.

As anomalias congênitas (de nascença) das vias urinárias são importantes causas de infecção nos meninos. Entre 20% e 30% das crianças que têm infecção urinária possuem alguma anormalidade anatômica. Portanto, é indicada uma investigação nesse sentido em todas as crianças com infecção. As pedras nos rins (cálculos) ou em outras partes das vias urinárias (litíase urinária) também podem aumentar o risco de infecção urinária se de alguma forma dificultarem o fluxo da urina. Outro importante fator de risco é um prejuízo do sistema imunológico provocado, por exemplo, pelo diabetes.

Finalmente, na gravidez as infecções urinárias são extremamente comuns, não só pela mudança da posição anatômica das vias urinárias provocada pela compressão do feto, como também pela participação de fatores hormonais.

Quais os sintomas da cistite e da pielonefrite?

A cistite pode ter muitos sintomas, mas também pode acontecer de forma totalmente assintomática, como é comum nos diabéticos e nas grávidas. Ela manifesta pelo aparecimento de um desejo forte de urinar com freqüência (polaciúria), de ardência no canal da urina no momento da micção (disúria), de uma dificuldade de começar a urinar (estrangúria), de uma sensação de que a bexiga não se esvazia mesmo que se tenha acabado de urinar e de um desejo imperioso de urinar, não dando quase tempo de chegar ao banheiro. Além disso, pode haver o aparecimento de cheiro forte e desagradável na urina e a ocorrência de uma urina com aspecto turvo ou com sangue.

Sinais como febre e dor nas costas (dor lombar), náuseas e vômitos podem indicar que a infecção já chegou aos rins (pielonefrite).

Como as infecções urinárias são diagnosticadas?

O diagnóstico de uma infecção urinária é, na maioria das vezes, bastante simples. Ele é feito através da história e dos exames físico e de urina do paciente. São dois os exames de urina pedidos usualmente. Um é o EAS, que é um exame microscópico para detectar a presença de pus, bactérias, sangue e células inflamatórias na urina. O outro é a urinocultura, que identifica a bactéria causadora da infecção. Uma vez identificada essa bactéria, ela é normalmente submetida a um teste de sensibilidade aos antibióticos (TSA), a fim de que se determine qual o antibiótico mais eficaz contra ela.

A colheita da urina para esses exames deve ser feita da seguinte maneira:

  1. Lavar bem a região genital e enxugar. As mulheres devem afastar os pequenos lábios vaginais com os dedos para não contaminar a urina.
  2. Começar a urinar fora do frasco de colheita (desprezando a primeira parte da micção).
  3. Colher no frasco o jato urinário que se segue ao início da micção.
  4. Enviar imediatamente o frasco ao laboratório, junto com o pedido feito pelo médico.

Obs.: O frasco adequado para a colheita é o frasco estéril, que pode ser adquirido em qualquer farmácia. 

Se as infecções forem recorrentes, pode também ser recomendada a realização de um exame de ultra-som das vias urinárias para verificar possíveis anormalidades que estejam propiciando a recorrência da infecção, ou de uma cistoscopia, exame que permite a visualização direta da bexiga pelo médico com a introdução de um pequeno aparelho (cateter) através da uretra.

Como são tratadas a cistite e a pielonefrite?

Normalmente, o tratamento da cistite é iniciado antes mesmo de ficarem prontos os resultados dos exames de urina. Quando eles chegam, faz-se as correções necessárias. O tratamento em geral é feito com antibióticos orais e sua duração varia de três a sete dias, dependendo do remédio usado, do germe isolado, da gravidade da infecção e da história do paciente (infecções prévias, tratamentos já utilizados etc.).

Também são prescritos analgésicos urinários para aliviar a ardência ao urinar e antiespasmódicos que reduzem a dor e o desejo de urinar com freqüência. Além disso, é importante  aumentar a ingestão de líquidos, o que facilita a eliminação das bactérias, e evitar ingestão de substâncias que sejam irritantes da bexiga, como a cafeína e o álcool.
Se a infecção atingiu os rins, o que chamamos pielonefrite, é possível que seja necessária internação hospitalar e uso de antibióticoterapia venosa.

É importante ressaltar que os sintomas podem desaparecer logo após o início do tratamento e antes que a infecção esteja completamente curada. Por isso deve-se obedecer à duração do tratamento prescrito pelo médico. Não se esqueça que o tratamento inadequado pode fazer não só com que a infecção volte como também que ela atinja os rins, o que pode ter conseqüências bastante graves.

O que fazer quando se tem episódios recorrentes de infecção urinária?

Definimos como infecção urinária recorrente a ocorrência de mais de três episódios no período de um ano. Aqueles que têm infecção recorrente devem buscar tratamento especializado com urologistas. Geralmente, são pessoas com alguma deficiência imunológica, hormonal ou com defeitos anatômicos, que podem ser corrigidos pelos especialistas.

Como se prevenir da infecção urinária?

Todas as pessoas, principalmente quem sofre de infecção urinária recorrente, deve tomar no seu dia-a dia os seguintes cuidados gerais de prevenção:

  1. Urinar com mais freqüência, ou seja, fazê-lo antes mesmo que a vontade apareça. A urina, quando acumulada durante muito tempo na bexiga, facilita as infecções. Além disso, quando urinamos o jato urinário lava a uretra com a urina limpa que vem da bexiga e empurra para fora as bactérias que estão começando a subir pela uretra.
  2. Urinar imediatamente após o ato sexual para também lavar a uretra de possíveis bactérias invasoras.
  3. Fazer higiene após as evacuações.
  4. Sempre que possível, após as evacuações e durante o banho, lavar toda a região da vulva, do períneo, do púbis e do ânus (região genital) com sabão anti-séptico contendo clorohex ou polivinilpirolidona. As farmácias vendem estes sabões na forma líqüida ou em tabletes.
  5. Quando de faz uso de papel higiênico, limpar-se sempre no sentido de frente para trás (sentido vagina–ânus). Se a limpeza se fizer de trás para frente, bactérias do ânus podem ser levadas até a vagina e de lá elas podem caminhar até a uretra, por onde sobem até atingir a bexiga.
  6. As mulheres que já estão na menopausa devem ser avaliadas por um urologista e por um ginecologista. Se houver falta de hormônios, com conseqüente atrofia dos tecidos da vagina e da uretra, elas devem ser tratadas com cremes vaginais contendo hormônios de ação local. Os tecidos da uretra e da vagina que estavam ressecados e sem vitalidade (portanto com menos resistência às bactérias) rapidamente se recuperam e as cistites desaparecem ou se tornam muito mais raras.
  7. Relações vaginais após relações anais devem ser evitadas pelo risco de se levar bactérias do intestino para a uretra.
  8. Nas crianças, a troca de fraldas deve ser feita logo que fiquem sujas de fezes, acompanhada de banho local com sabões anti-sépticos.

Além dessas medidas preventivas, pode ser necessário o uso de antibióticos para prevenir a recorrência das infecções. Podem ser prescritos antibióticos em baixas doses para serem tomados diariamente por períodos prolongados (seis meses ou mais) ou antibióticos que se tomam em dose única após o ato sexual. Seu médico decidirá sobre a necessidade dessas medidas adicionais.

 

 

 

 

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