-  Nova Mensagem
 -  Histórico
 -  Livro de E-mail
 -  Adicionar E-mail
 -  Dados Administrativos
 -  Gerar TXT
 -  Desconectar
 

Herpes

Autor: Prof. Pedro Paulo Sá Earp

Introdução

O herpes é causado pelo chamado herpes vírus humano (HVH). Os oito tipos existentes deste vírus compõem a família Herpesviridae e são numerados de 1 a 8. Cada um deles causa uma doença específica. Assim, o HVH-3 causa a catapora na criança e o herpes zoster no adulto, enquanto o HVH-4 causa a mononucleose e assim por diante. Por isso, podemos dizer que a maioria de nós já teve durante a vida contato com algum dos vírus da família herpes.

Os tipos de vírus que causam a doença que é por nós conhecida como herpes são os HVH-1 e HVH-2, também conhecidos como vírus herpes simples 1 e 2 (HSV-1 e HSV-2). A infecção por qualquer destes dois tipos produz sintomas semelhantes. No entanto,  eles diferem no local acometido. O herpes simples 1 acomete principalmente a área da boca e dos lábios, enquanto que o tipo 2 acomete preferencialmente as áreas genitais.

Assim, se você  tem herpes só na boca, o mais provável é que você esteja infectado com o HSV-1; se o seu herpes só acomete as áreas genitais, com o HSV-2. Mas isso não é obrigatório. O HSV-1 também pode acometer áreas genitais e o HSV-2 também pode dar na boca. Essa inversão acontece principalmente com a prática do sexo oral.

Como é que se pega herpes?

A transmissão do herpes se dá pelo contato íntimo (não necessariamente sexual) entre uma pessoa que tem o vírus (portadora) e uma pessoa suscetível (que não tem anticorpos contra o vírus).  O vírus penetra através da pele lesada ou da região das mucosas (vagina, boca) e começa a se multiplicar dentro da células.

A transmissão do HSV-2 é geralmente por via sexual e a infecção herpética genital é um fator de risco para o HIV, o vírus transmissor da Aids (se você já tem herpes genital aumentam suas chances de ser infectado pelo HIV). A maioria das pessoas, no entanto, não sabe quando nem com quem pode ter se contaminado, por razões elucidadas a seguir.

Quando começam a aparecer os sintomas do herpes?

O período de incubação é o tempo decorrido do momento em que você se contamina até a hora que a doença se manifesta. No herpes esse prazo varia de quatro a seis dias. No entanto, menos de 1% daqueles contaminados vão ter uma infecção primária clinicamente manifesta, ou seja, verão os sintomas da doença logo após o período de incubação. De fato, 99% das pessoas que se contaminam terão o que os médicos chamam de infecção subclínica, ou seja, mesmo depois da contaminação e do período de incubação não manifestam exteriormente a doença.

Quem são os portadores do vírus do herpes?

Tanto aqueles que tiveram infecção primária quanto os que tiveram infecção subclínica vão se tornar portadores do vírus herpes simples. Sabe quantas pessoas são portadores (sintomáticos ou assintomáticos) destes  vírus? Nada menos de 70% a 90% da população mundial! Mais de 85% dos adultos têm HSV-1, geralmente adquirido de forma assintomática ainda na infância. Cerca de 25% da população americana têm HSV-2, adquirido principalmente após o início da vida sexual.

Há algumas explicações para esses números alarmantes. Entre elas:

  • Muitas infecções ativas não apresentam qualquer sintoma - Este é um grande impulso para a disseminação do herpes e também do vírus da Aids. Pessoas assintomáticas não se protegem nem protegem os seus parceiros.
  • Falta instrução - A população em geral não sabe como se adquire herpes e, conseqüentemente, como se prevenir da infecção. Tampouco sabem reconhecer a herpes e muitas vezes atribuem as lesões provocadas pela doença a outras causas. Isso é muito comum no caso da herpes labial. Costuma-se atribuir as lesões que ele provoca a queimadura de sol, mordedura dos lábios etc. Muitas vezes, mesmo aqueles que têm episódios recorrentes passam a vida sem se dar conta de que se trata de um sintoma da herpes.
  • Preconceito - Quem tem herpes, mesmo que o saiba, raramente o diz. Tem medo do preconceito dos outros e do próprio. Considera-se uma exceção, quando na verdade é a regra. A infecção está aí, atingindo a grande maioria da população, apenas camuflada pelo fato de na maioria das vezes não se manifestar externamente.

Não há quem receba o diagnóstico de herpes e não pergunte ao médico ou a si mesmo: "Por que logo eu fui pegar isto?", como se estivessemos falando de uma doença rara. Na verdade, a herpes é muito mais comum do que se imagina.

Quanto tempo demora entre a infecção e a manifestação do herpes?

O período de latência é aquele que ocorre após a infecção. É um espaço de tempo em que não há qualquer sintoma de presença do HSV _ muito embora o vírus esteja no organismo, ele parece estar numa fase de acalmia, como que escondido, pronto para atacar. Não se sabe ao certo onde ele se aloja quando está no seu período de latência, se no nervo, na pele ou em outros tecidos, mas ele está lá. Quando as circunstâncias lhe forem favoráveis, ele voltará a se multiplicar e a doença pode se manifestar novamente. Esta reativação pode ser assintomática, causar sintomas leves ou provocar doenças mais sérias. A gravidade vai depender do estado imunológico do indivíduo (se suas defesas estão boas ou fracas naquele momento).

Assim, se você teve herpes uma vez e não está com nenhum sintoma de herpes agora, você pode estar no período de latência. Se nunca manifestou nenhum sintoma de herpes, também pode estar no período de latência. Lembre-se que 70% a 90% da população está infectada e que 99% das pessoas infectadas não manifestam sintomas da doença.

Quais os sintomas da doença?

Cada tipo de herpes apresenta sintomas próprios. Entre eles:

Herpes Labial - Como já mencionamos anteriormente, o herpes labial é na maioria das vezes causado pelo vírus HSV-1. A infecção primária por HSV-1 em crianças pequenas é geralmente assintomática, mas, principalmente naquelas abaixo dos cinco anos, pode se manifestar com febre, dor de garganta, garganta vermelha e inchada, seguidas do aparecimento de lesões na boca e na garganta (pequenas úlceras ou bolhas). Em adultos jovens pode haver inflamação na garganta (faringite) ou um quadro parecido com o da mononucleose.

As infecções recorrentes se manifestam mais freqüentemente como herpes labial, porém sem lesões dentro da boca ou outros sintomas. Quando há a contaminação, ocorre uma crescente multiplicação do vírus dentro das células da pele e das mucosas. Quando ela se torna exagerada, essas células acabam se rompendo, causando uma inflamação no local. O mesmo pode acontecer quando, após um período de latência o vírus é reativado (quando encontra circunstâncias favoráveis) e volta a se multiplicar.

Este processo dá origem ao aparecimento de minúsculas bolhas (vesículas), que podem estar isoladas umas das outras ou agrupadas como num pequeno cacho de uva. Essas vesículas são brilhantes e têm uma pequena quantidade de líqüido claro em seu interior. A área na base e em torno dessas vesículas fica vermelha. Pode haver dor, coceira, ardência ou alteração da sensibilidade no local onde aparecem. Esses sintomas podem aparecer antes mesmo do surgimento das vesículas _ nestes casos chamamos os sintomas de pródromos. Os pródromos são os sintomas que avisam que uma lesão de herpes vai aparecer. A pessoa que tem herpes quase sempre sabe que as vesículas vão surgir com antecedência através da ação dos pródromos.

Muitas vezes não conseguimos ver essas bolhinhas, pois elas estouram espontaneamente, ficando apenas uma pequena erosão (que é vista como uma feridinha), em cima da qual se forma uma crosta (casquinha). Portanto, preste atenção: se você tem machucadinhos na boca freqüentemente, é possível que seja herpes e você deve procurar um médico assim que a lesão aparecer, para que ele possa fazer o diagnóstico.

Herpes genital - O herpes genital é causado pelo HSV-2 e de transmissão predominantemente sexual. Na infecção primária por HSV-2 pode haver febre, mal-estar, perda do apetite (anorexia) e aumento dos gânglios inguinais (da virilha) associados às lesões na pele e mucosas. A cura completa da infecção primária pode levar várias semanas. Ele pode se manifestar de forma bem mais grave: 10% dos infectados por HSV-2 desenvolvem meningite na infecção primária.

No herpes genital, as vesículas podem surgir no pênis, na vagina, na vulva, no colo do útero ou no ânus. Também pode haver o envolvimento da uretra (canal da urina), principalmente nas mulheres. Os homens identificam mais facilmente essas vesículas no pênis. No entanto, a mulher raramente consegue vê-las, pela dificuldade que lhe impõe sua anatomia.

Também no herpes genital pode haver ocorrência de pródromos (com as mesmas características daqueles do herpes labial). Porém, em geral os sintomas do herpes genital são bem mais visíveis, mesmo nas infecções recorrentes, o que é bastante penoso para os infectados. O sintoma predominante nesses casos será a dor, que é bastante importante, e o prurido. Quando há envolvimento da uretra também há ardência ao urinar (disúria) e até retenção urinária.

Mas podem não haver sintomas, mesmo com a infecção ativa. Esse fato é mais um agravante na disseminação da infecção. Sempre que aparecerem bolhinhas ou feridinhas na região genital (em volta do pênis, vagina ou ânus) e, principalmente, quando essas lesões doerem ou coçarem, você deve suspeitar de herpes. Sobretudo se teve relação sexual com alguém que apresentou os mesmos sintomas ou que sabidamente tem herpes.
Tanto as lesões de herpes genital como as de herpes labial tendem a desaparecer por conta própria, mesmo sem nenhum tratamento, num período de sete a dez dias. Por isso, é importante procurar logo o médico, pois após o desaparecimento da lesão o diagnóstico é difícil de ser feito. Pode haver aumento dos gânglios (linfonodos) que se localizam perto da área das lesões na pele. No caso do herpes genital são os gânglios que ficam na região inguinal (virilha) e no caso do herpes labial, os do pescoço.  

Herpes ocular - O herpes nos olhos pode se manifestar na forma de uma conjuntivite, que aparece sozinha ou acompanhada de outras lesões. Em caso de vermelhidão, ardência, lacrimejamento, deve-se procurar o oftalmologista para que se faça o diagnóstico precoce e se comece logo o tratamento. O herpes ocular é grave e, nos EUA, é a causa mais freqüente de cegueira por infecção.

Herpes neonatal - O herpes em recém-nascidos acontece na freqüência de um caso para cada 3.500 nascimentos. Em 70% dos casos é causado pelo vírus HSV-2. Ele é transmitido da mãe para o bebê durante o parto, quando o bebê entra em contato com  secreções contaminadas pelo vírus na vagina da mãe. O recém-nascido pode ter herpes de três formas:

  • Apenas na boca, nos olhos e na pele.
  • Apenas no sistema nervoso central, com infecção do cérebro e das outras estruturas que compõem o sistema nervoso central (encefalite).
  • Infecção disseminada, podendo acometer todo o organismo.

As taxas de mortalidade são altas quando há encefalite (15%) e infecção disseminada (60%), mesmo quando é feito o tratamento adequado. Além disso, só 40% das crianças que sobrevivem à encefalite e à infecção disseminada se desenvolvem normalmente. Daí a importância de todas as mulheres grávidas se submeterem logo antes do parto a um teste que avalia se há vírus nas secreções vaginais. Digo todas, pois a maioria dos recém-nascidos com herpes são filhos de mulheres que não têm nenhum sintoma de herpes na hora do parto, que nunca tiveram herpes na vida e que negam ter tido relações sexuais com parceiros com herpes.

Herpes em imunodeprimidos - O herpes é sempre uma doença que inspira maiores cuidados nos doentes com baixa imunidade, como os pacientes HIV positivos, com doenças crônicas, com câncer ou que se submeteram à quimioterapia. Nesses pacientes a doença se manifesta de forma mais grave, demora mais a cicatrizar e geralmente necessita de um acompanhamento cuidadoso e um tratamento mais agressivo.
 

Porque o vírus latente é reativado e volta a se multiplicar?

Assim como ainda não sabemos por que apenas alguns indivíduos apresentam infecções recorrentes, também não temos uma explicação definitiva sobre o que causa sua recorrência. No entanto, sabemos que alguns estímulos podem propiciar a reativação do vírus. Entre eles:

4Estresse

4Exposição prolongada ao sol

4Febre

4Infecções de qualquer origem

4Traumatismo

4Qualquer outra condição que propicie queda da imunidade (defesa do organismo contra infecções)

Sendo assim, esses são fatores que devem ser evitados por todos aqueles que apresentam infecções recorrentes.

Após a infecção primária (sintomática ou assintomática) existem duas possibilidades:

  • O sistema imunológico pode reagir contra a infecção e a pessoa assim adquire  imunidade duradoura contra a doença, não a manifestando nunca (infecção primária assintomática) ou não voltando a manifestá-la (infecção primária sintomática). É o que acontece com a grande maioria dos infectados pelo vírus do herpes.
  • O organismo pode ter uma receptividade especial e manifestar a doença várias vezes no decorrer da vida (infecções recorrentes). A freqüência das recorrências é bastante variável e o intervalo entre os episódios pode ser de semanas, meses ou até anos.

Qual o tratamento disponível?

Os objetivos do tratamento contra o herpes são minimizar a dor e o desconforto do paciente e diminuir a duração das crises (quando isto for possível) e a freqüência das recorrências. Normalmente só o herpes genital e o herpes labial muito severo são tratados. Alguns tipos de tratamento:

Tratamento da infecção primária

Local (tópico):

  • Compressas com anti-sépticos no local das vesículas, que podem se feitas com água boricada, permanganato de potássio ou água de alibour a 10%.
  • Pastilhas com anestésicos, principalmente para as crianças com dor intensa na boca.
  • Antibióticos em pomadas ou cremes, caso as lesões tenham se infectado com bactérias.

Via oral (sistêmico): Aciclovir 200mg de 4/4hs (5 x por dia) por 7 a 10 dias. O aciclovir é um anti-viral, ou seja, tem o mesmo efeito dos antibióticos nas bactérias. É usado normalmente nas primeiras 72 horas do aparecimento dos sintomas, principalmente nas infecções genitais. Ele não evita a crise, mas parece torná-la mais curta.

Tratamento da infecção recorrente

Local:

  • Compressas com anti-sépticos.
  • Aciclovir creme 5% (não é muito eficaz e seu uso deve ficar restrito para herpes genital e labial na fase inicial, em pacientes imunodeprimidos).
  • Antibióticos em cremes ou pomadas

Via oral:

  • Aciclovir 200mg 4/4hs por 7 a 10 dias (começar nas primeiras 72 horas após o início dos sintomas).
  • Ácido fosfono fórmico (foscarnet) 40mg/kg, duas vezes ao dia, durante 14 dias (para casos resistentes ao aciclovir e imunodeprimidos).
  • Valaciclovir 500mg, duas vezes ao dia (para o herpes genital)

Aqueles que apresentam recorrências graves e freqüentes de herpes genital podem usar um esquema supressor, com Aciclovir em doses de 600-800mg/dia por um período mais prolongado.

Tratamento em pacientes imunodeprimidos e recém nascidos

O tratamento destes pacientes requer um cuidado muito maior, pois as infecções herpéticas nessas pessoas tendem a ser ou se tornar muito mais graves. Deve ser feito sempre com um anti-viral por via intravenosa, geralmente o aciclovir, necessitando, portanto, de internação. Este tratamento também deve ser feito em todos aqueles que apresentem infecção primária complicada por meningite.

 

 

 

 

Copyright 2006 © - Clínica Maurício Magalhães Costa - Todos os direitos reservados